quinta-feira, 1 de maio de 2014

A história da Tia Naná, a inspetora da escola ou De Como a Pequena Naná foi Buscar Água

A história da Tia Naná, a inspetora da escola ouDe Como a Pequena Naná foi Buscar Água



Houve um tempo em que a tia Naná foi como você, teve corpo novo assim como você, teve pernas retas assim como as suas e todos os dias dela eram eternos assim como os seus.
Ela tinha muitos amigos. Todos eram seus amigos. O vento, a terra, a água, o fogo e os animais eram seus amigos. Mas seus pais eram só seus pais. Você é jovem e acredita no amor porque é amada por sua mãe, mas isso acontece porque você veio ao mundo agora e é assim que as coisas são agora. Mas para a tia Naná, amor não passava de uma idéia remota.
Ela vivia no sertão. Brincava de se esconder em caiporas e trabalhava com a mãe em casa. Seu mundo era o cercado de casa e casa da vizinha viúva.
Quando alguém vinha da cidade era uma farra. E quando tinha água no poço também. Mas para os adultos era como se a visita não fosse boa e como se a água não fosse suficiente; a farra não acontecia para eles.
E a tia Naná, que era uma moça igual a você, que tinha cabelos pretos pretos e longos como os seus, nariz novo e andar orgulhoso como os seus, só tinha um sonho, que era tirar a preocupação dos seus pais com a seca e todas as noites ia dormir pensando num jeito de ter água para sempre. Acordava sempre preocupada e suando frio no meio dos outros doze irmãos com que se amontoava no chão de terra batida. Queria uma solução. Não queria mais ver seu pai partindo para a cidade e voltando sem nada, nem a mãe absorta em trabalho para não pensar que à noite provavelmente não teria o que dar de comer à família.
“O que fazer? O que fazer?” vinha à sua cabeça o tempo todo.
Um dia, Naná acordou com uma voz que lhe disse para sair, para ir na direção contrária da que o seu pai ia e teve muito medo, pois ninguém nunca ia para lá por ser cheio de cobra.
Então disse para sua mãe que precisava ir até o poço, mas a mãe lhe disse “o poço não tem nada”. Naná disse então que precisa de permissão para ver como estava a vizinha adoentada, mas a mãe disse “ela não tem mais jeito”. Naná disse, por fim, que ia para a cidade ajudar seu pai a conseguir algum trocado e então conseguiu permissão.
Naná saiu na direção em que seu pai sempre saía, sentindo o coração pesado pois os olhos de sua mãe lhe vigiavam os passos.
Levou consigo três pedaços de macaxeira e uma pitaia e um saco de pano. Andou, andou e logo quis descansar. Estendeu o saco de pano na areia quente e se sentou. Um lagarto se aproximou e disse:
“Ffffiuuuu! Faz uma semana que não acho comida.”
Naná então lhe ofereceu um pedaço de macaxeira, ele aceitou e depois lhe disse:
“Se você quer ir para o leste, antes vá para o oeste, proteja-se do sol e ande reta.”
Naná assentiu e seguiu caminho com o saco de pano protegendo a cabeça.
Andou até a noite chegar, e percebeu um pouco tarde que precisava juntar gravetos para fazer uma fogueira para que pudesse passar uma noite tranquila. Conseguiu juntar os gravetos com muita pressa, mas nunca tinha feito uma fogueira, começou a ventar muito, e tinha areia para todos os lados, ela mal conseguia ver. Alguém se aproximou no meio da escuridão e lhe disse:
“Ffffiuuuu! Faz uma semana que não acho comida.”
Naná abriu a trouxinha e lhe ofereceu uma macaxeira. Quando o ser se aproximou para pegar o alimento, Naná viu que era uma cobra azul de língua de fora abocanhando sua macaxeira. Levou um susto, mas ficou em silêncio, apenas o vento sibilava. 
Depois de satisfeita, a cobra lhe deu instruções sobre como fazer a fogueira e a acendeu com sua língua e foi embora.
Naná rezou, comeu sua última macaxeira e dormiu. E no seu sonho, as estrelas desciam até ela e lhe faziam cócegas e a Lua, que era a líder do céu noturno, se dispôs a levá-la aonde quer que fosse e Naná conheceu muitas terras distantes onde ela pôde ouvir o riso e também onde pôde ouvir o choro distante do povo. Então, ela se perguntou se a Lua poderia levá-la para ver seu irmão que estava no céu e perguntou à Lua se ela era capaz de levá-la lá e a Lua disse:
“Mas é claro! Vou levá-la já!”
E Naná se alegrou e se segurou firme em sua montaria, mas de repente seus olhos ficaram com sombras, ela lembrou do seu pai e de sua mãe e disse:
“Não, não, não, eu vim ajudar os meus pais.”
A Lua e as estrelas ficaram muito bravas, a chamaram de ingrata e a jogaram na terra. Naná acordou muito suja de areia e machucada, mas o sol estava nascendo e ela logo se esqueceu do sonho. Pegou a pitaia e a comeu enquanto via o sol chegar. 
Então, pôs-se a andar e andou, andou, andou e, quando já não sabia onde estava, avistou ao longe a sua própria casa. 
Ficou feliz, mas logo teve medo, medo de sua mãe, mas então ponderou que talvez isso fosse um sinal, que talvez ela devesse esquecer tudo isso e voltar para casa. Mal deu um passo à frente e um falcão enorme lhe sobrevoou a cabeça dizendo:
“Venha!”
Ele voou, voou e Naná foi, foi, ao seu encalço sem perceber que passava pelas tocas das cobras e as cobras a saudavam. O falcão pousou em um tronco de árvore ressequida e nesse tronco havia um ninho cavado lá. Naná parou e não hesitou em dizer:
“Amigo, minha família sofre.”
O falcão alimentava seus filhotes ouvindo a moça. Ela continuou:
"Minha família sofre… porque não tem água.”
Sem olhar para Naná, o falcão respondeu:
“Lá, além do acampamento dos homens, há muita água, mas a água foi presa por magia.”
Naná ficou muito contente e pediu:
"Ai, amigo, vamos comigo lá!”
Mas o falcão fez que não:
"Não, eu tenho filhos.”
Ao ver o rosto da pequena apertar, ele retirou uma pena  do seu corpo e lhe estendeu dizendo:
“Mas leve isso e será como se eu estivesse com você, minha querida.”
Naná se perguntou se aquilo que seria amor, agradeceu com uma reverência e seguiu na direção do acampamento dos homens.
Entrou com passo firme, apertando a pena na mão direita. Os homens sujos de terra e machucados pararam o que faziam para olhá-la.
Ao andar buscando o líder, ouviu o som da água ficando cada vez mais perto. Foi até o homem que estava sentado recebendo seu almoço, que estava na maior barraca e disse:
"Vim aqui buscar algo que já é meu.”
Ao ouvir isso, o homem deu uma sonora gargalhada, saliva e farinha escorreram na sua barba.
Naná se sentou na sua frente, esperou com um leve sorriso, e disse olhando à sua volta:
“Que belo acampamento! Vocês parecem homens muito trabalhadores…”
“Sim”, respondeu o homem, “nós estamos construindo algo muito bom. Uma hidrelétrica. Isso vai ser bom para todos. E você, o que veio fazer aqui?”
“Eu vim…” Naná respondeu se levantando e pôs-se a correr como louca na direção do som da água e os homens não puderam alcançá-la porque ela acreditou que eles não poderiam alcançá-la, mesmo vendo que alguns já estavam à sua frente, ela foi e foi, certa de estar certa até chegar no rio, que a viu chegando e, sorrindo, abriu seus braços para recebê-la. E Naná no seu abraço pulou, sendo balançada com alegria e havia música no ar, folhas e sementes na água, e amigos lagartos, cobras e falcões às beiradas.
E assim ela foi, segura, até a porta de sua casa. E, pela primeira vez, Naná viu sua família fazer uma farra e das sementes vieram árvores e alimentos que alimentaram sua família e a da vizinha.
No dia seguinte, Naná acordou sem ter com o que se preocupar e, por isso, foi embora.

Essa é a história da inspetora de alunos, a tia Naná. Ela foi uma moça como você e você será uma mulher como ela. Mas não diga nada, apenas guarde isso no seu coração. E quando a tia Naná lhe disser um palavrão, entenda como uma oração porque ela já fez o caminho e entende você como a palma da mão.