segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Aforismo zen

"O intelecto, diz um conhecido aforismo zen, 'é um bom servo e um mau mestre'." (Haicai, antologia poética org.: Rodolfo Gutilla, Companhia das Letras)

Estar no Momento Presente



Estar no Momento Presente
Quando eu como, eu como
Quando eu bebo, eu bebo
Quando eu durmo, eu durmo
Quando eu estou com alguém, eu estou com alguém
Quando eu não estou com alguém, eu não estou com alguém
Ser é Estar

domingo, 19 de outubro de 2014

Eu quero ser um pássaro qualquer

Eu quero ser um pássaro qualquer que
copula assim como voa e que de mim nasçam
filhotes vocábulos vírgulas transparentes sem penas
e eu vou lhes ensinar a voar
vou lhes ensinar derrubando-os do ninho
e então eles vão formar sonetos
que eu não seria capaz de escrever sozinho.

Eu pedi carinho

baseado em I asked for water (she gave me gasoline)

Oh, eu pedi carinho, ele me deu dinheiro
Oh, eu pedi carinho, ele me deu dinheiro
Esse é o homem mais frio que já encontrei
Sirene de ambulância, pessoas de preto
Sirene de ambulância, pessoas de preto
Eu gostaria que ele não me magoasse mais
Me diga, amor, quando você aparecerá?
Me diga, amor, quando você aparecerá?
Você sabe que eu o amo, só não sei até quando.

Letra original na versão de Howlin' Wolf

Oh, I asked her for water, she brought me gasoline
Oh, I asked her for water, she brought me gasoline
That's the troublingest woo-hoo (
woman?
), that I ever seen
The church bell tollin', the hearse come driving slow
The church bell tollin', the hearse come driving slow
I hope my baby, don't leave me no more
Oh tell me baby, when are you coming back home?
Oh tell me baby, when are you coming back home?
You know I love you baby, but you've been gone too long

Link: http://www.vagalume.com.br/howlin-wolf-11/i-asked-for-water.html#ixzz2I91N9CYr



Uma criança se apaixona pela vida

3 Uma criança se apaixona pela vida 
E entrega sua alma sem nenhum problema
O problema é quem a recebe

Enquanto as pessoas...

2 Enquanto as pessoas quiserem mudar as outras, não haverá paz.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Relate os seus desconfortos

1 Relate os seus desconfortos em relação a alguém em um áudio. Ouça e perceba o que acontece.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

D3Zconfortos - contos haicai

1

Menos teoria, mais benfeitoria

2

Eu queria ser feliz
E servindo percebi
Que a felicidade
Está em mim

3

Nada se sucede
Sem motivo
O Universo aspira
Quando se dá motivo

4

Existem sonhos do passado
Existem sonhos do futuro

5

Todo mundo é comum
Ninguém tem nada de mais
Mas tem algumas pessoas
Por quem a câmera se apaixona

6

O gato é infiel, sem dúvida
Mas, pelo menos, ele é infiel a nós

7

O mundo é como a escola
Onde todos os dias beijamos pouco
E brigamos muito



Uma criança se apaixona pela vida
E entrega sua alma sem nenhum problema
O problema é quem a recebe

9

Enquanto as pessoas quiserem mudar as outras, não haverá paz

10

Relate os seus desconfortos em relação a alguém em um áudio. Ouça e perceba o que acontece.




Saudades do cheiro do mar impregnando o ar

Saudades do cheiro do mar impregnando o ar
O que assiste a encontros e despedidas
O mesmo que vê o que não deve ser visto
Que abraça a todos como faria Dionísio

Saudades do lugar
Que ficou escondido na minha memória
Aquela areia quente onde brincamos
Eu já não piso mais
Naquela época tínhamos tantos sonhos
Você já não sonha mais...

Saudades do cheiro do mar
Mas eu sinto que não há por quê voltar
Eu cortei a linha, dei-lhe as costas e fui embora
Em outra cidade vivo agora
Esqueci o caminho de volta
No meu quarto só uma imagem resta
Impressa por você na adolescência
Velha e amarelada, é uma cópia
De uma gravura de Hokusai

Nós poderíamos ter sido um
Nós poderíamos ter sido um

De você eu desejei mais que amizade
Eu quis sua imensidade e não vi sua fraqueza
Sépia é a cor dessa cidade
Me enchendo de tristeza
É tão estranho!
Lembranças boas que assombram!
Sonhando um sonho ruim
Quero me mexer, sair dali
Tudo prende e tudo pesa
Tudo amarra, me onera
Tento me lembrar do tom
Da tua voz vacilante
Não consigo
Tudo está ficando distante

Nós poderíamos ter sido um



e o escritor preto...

"Se o escritor preto, ou qualquer outro escritor, fizer o que se é esperado dele, ele perdeu a batalha antes mesmo de entrar em campo. Eu suspeito que toda a agonia inerente a escrever vem do fato de que o escritor anseia por aceitação - mas deve ser uma aceitação nos seus próprios termos."
"If the Negro, or any other writer, is going to do what is expected of him, he's lost the battle before he takes the field. I suspect that all the agony that goes into writing is borne precisely because the writer longs for acceptance - but it must be acceptance on his own terms."
Ralph Ellison em entrevista à The Paris Review (1955)


Na mão um escorpião

Na mão um escorpião
Na cabeça o coração
Às vezes eu apareço
Só pra dividir o colchão

Meu coração é um pinhão

Meu coração é um pinhão
Quem hoje em dia descasca pinhão?

Li um nome estrangeiro no seu peito

Li um nome estrangeiro no seu peito
Vislumbrei um código no risco do teu olho
Na beira da cama você parecia à beira de si

Ontem à noite, o céu parecia

Ontem à noite, eu céu parecia
Uma televisão fora do ar

Deve ser bom ter uma casa

Nenhuma palavra

Nenhuma palavra de desculpas
Nenhum gesto de horror
Ela deixou de ser moça
E ninguém notou

domingo, 21 de setembro de 2014

De Acordo

#1

Numa festa de escola

Colega de classe: Qual carro o seu pai tem?

Kamira: ...

#2

No quarto da mãe, conversando sobre a importância da amamentação

Mãe: Eu não gostava de te amamentar, não.

Kamira: ...

Mãe: Amamentar é um saco, prende a gente. E eu sou livre.

Kamira: ...

Mãe: Tô brincando com você! Só queria ver a sua reação.

#3

Primeiro emprego
Garçonete numa pizzaria

Gerente: Vem aqui, vamos conversar.

Kamira: ...

(Fecha a porta do depósito)

Gerente: Você blablabla rendimento blablabla tira a blusa agora.




quinta-feira, 18 de setembro de 2014

言葉 ことば 「kotobah」pah lah vrahs

:::::::::::::::::::::::::::::: (((( 言葉 ことば 「kotobah」 ))) ::::::::::::::::::::::::::::::::
         〜カミーラ物語narrativasdekamira〜
:::::::::::::::::::::::::::::: (((( pah lah vrahs ))) ::::::::::::::::::::::::::::::::
Sigo na busca da arte da vida, a vida sentida em toda sua expansão, com sofrimentos e alegrias. Não quero ser feliz nem infeliz, mas tenho algo, certa pendência para a infelicidade, sim... O que é infelicidade? É não estar satisfeito... Por um lado, estou satisfeita com as coisas como elas são, mas por outro não estou. Quando eu estiver completamente satisfeita, então estarei morta, não importa como - fisica ou espiritualmente morta. Há pessoas que me amam, há. E então? Isso tem a mesma importância das contas a pagar, da roupa suja ou do chão a ser varrido. E que importância é essa? O significado por detrás de tudo isso? Que tudo é um processo, um fluxo, um constante sujar-lavar... E sujar não é ruim, é bom. É bom sujar e é bom lavar. Que palavra estranha é "sujar"! Tão carregada. E ela pode ser tão festiva. Você cozinha, suja tudo e é uma festa... Mas muita festa para mim pode ser entediante, então prefiro um estado de não-festa. Poderia passar o resto dos meus dias em estado de não-festa observando tudo, admirando gatos e fazendo contato... Contato com lugares, com o meu corpo, com as plantas, com quem eu gosto... sem falar... Palavras são limitadoras. Mas eu amo as palavras. A própria palavra "palavra" é maravilhosa e me traz tantas imagens
lavra
larva
parla
Me dá a impressão de que para falarmos precisamos levar o palato para a frente, precisamos empurrar, meter, furar...
Já em japonês, diz-se 言葉 ことば kotobah
É diferente. "Kotobah" é mais redondo, feminino... Me passa a imagem de palavras saindo de boquinhas dando cambalhotas devagarinho
KO - TO - BAH

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Euforia

Ela se esqueceu da euforia. Se esqueceu porque não tem mais tempo, porque agora é adulta, porque as contas, porque os amigos, porque os compromissos. Agora a vida é para além do entusiasmo descontínuo, para além das teses de bar, para além dos jornais amarelados cheios de pó em bancas de jornal, é para além da necessidade de se ir a cinemas e shoppings, é para além de se estar informada, e além e além e além dos cursos, das dinâmicas e dos desesperos. Não sentir euforia também tem sua própria excitação.
E sempre que ela acorda e o sol ainda não está lá, ela atenta os ouvidos para os sons dos que despertaram antes dela: é a perua escolar, é o padeiro fazendo pão, é o primeiro ônibus passando.
Se um dia você quiser voltar para um lugar querido, volte, volte sem falta, volte na sua lembrança cheia de fumaça, faltando o som como se estivesse embaixo d'água e você saberá que esse lugar tão querido é igual a todos os outros e que ele não é assim tão importante.
E se um dia você se lembrar de alguém que te fez algo que você não gostou, volte para o você que você era, olhe para si e sinta gratidão por si, por ter entrado naquela situação e por ter saído e quem sabe você compreenda o aprendizado que veio com isso ou não.
Nada importa quando se leva para o lado pessoal e tudo importa quando se olha com a lente universal.

sábado, 21 de junho de 2014

Sonhos 夢



Eu tive um sonho.

Sonhei que estava à frente de uma igreja com outros hippies.
Nós nos confessávamos uns aos outros e depois nos dependurávamos no varal para secar as lágrimas.
Varal das Lamentações

Eu tive um sonho.

Sonhei que acordei cedo, corri para pegar o metrô, o trem.
A multidão era apavorante.
Dei aulas, os alunos eram apavorantes.
A comida de micro-ondas me apavorou.
Fiz tudo o que devia correr, corri tudo o que devia fazer.
O suficiente não é cedo, pensei enquanto me afogava no vagão.
Água no pulmão.

Eu tive um sonho.

Sonhei que viajava sozinha.
Lá encontrei uma japonesa sozinha.
Andamos de mãos dadas cantando em japonês
Para afastar fantasmas.
Perguntaram-nos se éramos um casal.
Levei-a de volta para sua casa.
Quando a abracei, ela não me abraçou de volta.

Eu tive um sonho. 

Sonhei que desenhava o George Harrison em tudo.
Tinha fome.
Tinha sono.
Não conseguia parar de desenhar o George.
Quando me colocaram num carro, gostei.

Eu tive um sonho. 

Sonhei que meditava.
Não precisava mais dormir.
Estava bem.
No meio do processo
Um buraco
E a pergunta
“Por que você não me ama mais?”

Eu tive um sonho. 

Sonhei que estava preocupada e tranquila.
Eu era homem num corpo de menina.

sábado, 31 de maio de 2014

Mão humana

Lavar roupa
Mão humana
Abrir a porta
Mão humana
Regar as plantas
Mão humana
Girar a vida
Mão humana
Cutucar feridas
Mão humana
Fotografia
Mão humana
Provar comida
Mão humana
Ajustar a vista
Mão humana
Pedir ajuda
Mão humana
Violência muda
Mão humana
Na hora boa
Mão humana
Estar à toa
Mão humana

Enroscar-se em outra
Mão humana
É arrepiar-se toda
É amar todas as coisas
É arriscar-se a ser Pessoa
É ter felicidade na saudade
E aceitar a despedida

Mão humana

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Preconceito ao lado de uma escola pública num bairro periférico de São Paulo

Preconceito ao lado de uma escola pública num bairro periférico de São Paulo


Ao lado de uma escola pública de muro alto vermelho há uma praça chamada Maria do Céu. Ela tem bancos na calçada, dez ou menos palmeiras e algumas árvores menores, inclusive uma que está dando flor. Parece azaleia. O solo é íngreme: um morrinho. Lá embaixo, no pé do morro, um campinho de futebol. À noite, esse lugar não tem nenhuma iluminação. Casais do supletivo da escola fazem rapidinhas ali. Alguns jovens fumam maconha. Durante o dia, é pouco frequentada, sendo mais visitada na hora da saída da escola. Algumas crianças vão embora de perua, outras vão com suas mães. Os mais velhos saem em bando rumo a suas casas ou a seus cursos extracurriculares. Poucos ficam na praça.

Às vezes, uma velhinha que fica descansar. 
Às vezes, mães que ficam para bisbilhotar.
Às vezes, até crianças podem ser vistas por lá, quando alguém tem paciência para levá-las.
Crianças gostam das folhas das palmeiras para brincar. Elas correm para as largas, longas e ressequidas folhas e se dependuram nelas tomando impulso para girarem ao longo do tronco. E dão gritinhos de alegria enquanto giram. Essa foi a cena que um homem sentado num banco da praça viu e que o motivou a comentar para o colega:
"Caramba… Eu adorava fazer isso aí quando era moleque, ó." O colega assentiu com a cabeça e ficou olhando para a rua com um olhar perdido.
O homem saudoso suspirou baixinho, colocou a mão no abdome. Usava um casaco de motoqueiro grosso e preto. Seu colega estava de camisa sem mangas. Era um dia quente.
"Falou, parceiro." estendeu a mão para o colega. "Fica com Deus."
Se despediram.
O homem de casaco de motoqueiro foi até a escola que ficava ao lado da praça, tocou no interfone. Era um ex-aluno e pediu para ir retirar um documento na secretaria. 
No dia seguinte, saiu no jornal que um ex-aluno de uma escola da Vila Sônia, havia matado todos os seus professores de alegria aos lhes agradecer pelos ensinamentos que recebeu deles.

A história da Tia Naná, a inspetora da escola ou De Como a Pequena Naná foi Buscar Água

A história da Tia Naná, a inspetora da escola ouDe Como a Pequena Naná foi Buscar Água



Houve um tempo em que a tia Naná foi como você, teve corpo novo assim como você, teve pernas retas assim como as suas e todos os dias dela eram eternos assim como os seus.
Ela tinha muitos amigos. Todos eram seus amigos. O vento, a terra, a água, o fogo e os animais eram seus amigos. Mas seus pais eram só seus pais. Você é jovem e acredita no amor porque é amada por sua mãe, mas isso acontece porque você veio ao mundo agora e é assim que as coisas são agora. Mas para a tia Naná, amor não passava de uma idéia remota.
Ela vivia no sertão. Brincava de se esconder em caiporas e trabalhava com a mãe em casa. Seu mundo era o cercado de casa e casa da vizinha viúva.
Quando alguém vinha da cidade era uma farra. E quando tinha água no poço também. Mas para os adultos era como se a visita não fosse boa e como se a água não fosse suficiente; a farra não acontecia para eles.
E a tia Naná, que era uma moça igual a você, que tinha cabelos pretos pretos e longos como os seus, nariz novo e andar orgulhoso como os seus, só tinha um sonho, que era tirar a preocupação dos seus pais com a seca e todas as noites ia dormir pensando num jeito de ter água para sempre. Acordava sempre preocupada e suando frio no meio dos outros doze irmãos com que se amontoava no chão de terra batida. Queria uma solução. Não queria mais ver seu pai partindo para a cidade e voltando sem nada, nem a mãe absorta em trabalho para não pensar que à noite provavelmente não teria o que dar de comer à família.
“O que fazer? O que fazer?” vinha à sua cabeça o tempo todo.
Um dia, Naná acordou com uma voz que lhe disse para sair, para ir na direção contrária da que o seu pai ia e teve muito medo, pois ninguém nunca ia para lá por ser cheio de cobra.
Então disse para sua mãe que precisava ir até o poço, mas a mãe lhe disse “o poço não tem nada”. Naná disse então que precisa de permissão para ver como estava a vizinha adoentada, mas a mãe disse “ela não tem mais jeito”. Naná disse, por fim, que ia para a cidade ajudar seu pai a conseguir algum trocado e então conseguiu permissão.
Naná saiu na direção em que seu pai sempre saía, sentindo o coração pesado pois os olhos de sua mãe lhe vigiavam os passos.
Levou consigo três pedaços de macaxeira e uma pitaia e um saco de pano. Andou, andou e logo quis descansar. Estendeu o saco de pano na areia quente e se sentou. Um lagarto se aproximou e disse:
“Ffffiuuuu! Faz uma semana que não acho comida.”
Naná então lhe ofereceu um pedaço de macaxeira, ele aceitou e depois lhe disse:
“Se você quer ir para o leste, antes vá para o oeste, proteja-se do sol e ande reta.”
Naná assentiu e seguiu caminho com o saco de pano protegendo a cabeça.
Andou até a noite chegar, e percebeu um pouco tarde que precisava juntar gravetos para fazer uma fogueira para que pudesse passar uma noite tranquila. Conseguiu juntar os gravetos com muita pressa, mas nunca tinha feito uma fogueira, começou a ventar muito, e tinha areia para todos os lados, ela mal conseguia ver. Alguém se aproximou no meio da escuridão e lhe disse:
“Ffffiuuuu! Faz uma semana que não acho comida.”
Naná abriu a trouxinha e lhe ofereceu uma macaxeira. Quando o ser se aproximou para pegar o alimento, Naná viu que era uma cobra azul de língua de fora abocanhando sua macaxeira. Levou um susto, mas ficou em silêncio, apenas o vento sibilava. 
Depois de satisfeita, a cobra lhe deu instruções sobre como fazer a fogueira e a acendeu com sua língua e foi embora.
Naná rezou, comeu sua última macaxeira e dormiu. E no seu sonho, as estrelas desciam até ela e lhe faziam cócegas e a Lua, que era a líder do céu noturno, se dispôs a levá-la aonde quer que fosse e Naná conheceu muitas terras distantes onde ela pôde ouvir o riso e também onde pôde ouvir o choro distante do povo. Então, ela se perguntou se a Lua poderia levá-la para ver seu irmão que estava no céu e perguntou à Lua se ela era capaz de levá-la lá e a Lua disse:
“Mas é claro! Vou levá-la já!”
E Naná se alegrou e se segurou firme em sua montaria, mas de repente seus olhos ficaram com sombras, ela lembrou do seu pai e de sua mãe e disse:
“Não, não, não, eu vim ajudar os meus pais.”
A Lua e as estrelas ficaram muito bravas, a chamaram de ingrata e a jogaram na terra. Naná acordou muito suja de areia e machucada, mas o sol estava nascendo e ela logo se esqueceu do sonho. Pegou a pitaia e a comeu enquanto via o sol chegar. 
Então, pôs-se a andar e andou, andou, andou e, quando já não sabia onde estava, avistou ao longe a sua própria casa. 
Ficou feliz, mas logo teve medo, medo de sua mãe, mas então ponderou que talvez isso fosse um sinal, que talvez ela devesse esquecer tudo isso e voltar para casa. Mal deu um passo à frente e um falcão enorme lhe sobrevoou a cabeça dizendo:
“Venha!”
Ele voou, voou e Naná foi, foi, ao seu encalço sem perceber que passava pelas tocas das cobras e as cobras a saudavam. O falcão pousou em um tronco de árvore ressequida e nesse tronco havia um ninho cavado lá. Naná parou e não hesitou em dizer:
“Amigo, minha família sofre.”
O falcão alimentava seus filhotes ouvindo a moça. Ela continuou:
"Minha família sofre… porque não tem água.”
Sem olhar para Naná, o falcão respondeu:
“Lá, além do acampamento dos homens, há muita água, mas a água foi presa por magia.”
Naná ficou muito contente e pediu:
"Ai, amigo, vamos comigo lá!”
Mas o falcão fez que não:
"Não, eu tenho filhos.”
Ao ver o rosto da pequena apertar, ele retirou uma pena  do seu corpo e lhe estendeu dizendo:
“Mas leve isso e será como se eu estivesse com você, minha querida.”
Naná se perguntou se aquilo que seria amor, agradeceu com uma reverência e seguiu na direção do acampamento dos homens.
Entrou com passo firme, apertando a pena na mão direita. Os homens sujos de terra e machucados pararam o que faziam para olhá-la.
Ao andar buscando o líder, ouviu o som da água ficando cada vez mais perto. Foi até o homem que estava sentado recebendo seu almoço, que estava na maior barraca e disse:
"Vim aqui buscar algo que já é meu.”
Ao ouvir isso, o homem deu uma sonora gargalhada, saliva e farinha escorreram na sua barba.
Naná se sentou na sua frente, esperou com um leve sorriso, e disse olhando à sua volta:
“Que belo acampamento! Vocês parecem homens muito trabalhadores…”
“Sim”, respondeu o homem, “nós estamos construindo algo muito bom. Uma hidrelétrica. Isso vai ser bom para todos. E você, o que veio fazer aqui?”
“Eu vim…” Naná respondeu se levantando e pôs-se a correr como louca na direção do som da água e os homens não puderam alcançá-la porque ela acreditou que eles não poderiam alcançá-la, mesmo vendo que alguns já estavam à sua frente, ela foi e foi, certa de estar certa até chegar no rio, que a viu chegando e, sorrindo, abriu seus braços para recebê-la. E Naná no seu abraço pulou, sendo balançada com alegria e havia música no ar, folhas e sementes na água, e amigos lagartos, cobras e falcões às beiradas.
E assim ela foi, segura, até a porta de sua casa. E, pela primeira vez, Naná viu sua família fazer uma farra e das sementes vieram árvores e alimentos que alimentaram sua família e a da vizinha.
No dia seguinte, Naná acordou sem ter com o que se preocupar e, por isso, foi embora.

Essa é a história da inspetora de alunos, a tia Naná. Ela foi uma moça como você e você será uma mulher como ela. Mas não diga nada, apenas guarde isso no seu coração. E quando a tia Naná lhe disser um palavrão, entenda como uma oração porque ela já fez o caminho e entende você como a palma da mão.

Pensamentos dessa manhã

O homem deu nome a todos os animais

O homem deu nome a todos os animais. Ou seja, usou a razão até o limite. E, então, se sentiu só.



Certas coisas não podemos deixar acontecer

"Faço um voto de fugir da serpente que sei que irá me picar. Não faço simplesmente um esforço de fuga." Gandhi

Me esforço para estar sempre vigiando sem desconfiar.







Identidade

Me sinto bem com pessoas mais velhas do que eu, crianças e jovens. Eles se interessam por mim por causa da minha humanidade e não pela minha identidade. E a pessoa que fui ontem, hoje já não sou.